Misuk caminhava com passos firmes, os olhos atentos à estrada deserta à sua frente. Ao seu lado, o cavalo Shire relinchava baixinho — ainda tenso, mas confiante na presença da jovem e dos dois chow-chow que o acompanhavam. Havia algo nos olhos do animal que transmitia mais do que dor física… era como se ele carregasse um trauma recente, gravado a fogo em sua memória.
Flashback
Horas antes, o Shire pastava tranquilamente em um campo aberto cercado por madeira. O vento soprava leve, e o mundo parecia em paz.
De repente, um estrondo cortou o ar. Uma explosão violenta tremeu o solo, e o céu ficou encoberto por fumaça. O cavalo, assustado, empinou as patas dianteiras e relinchou alto, os olhos arregalados pelo terror.
Sem pensar, correu. A cerca se quebrou com a força de seu impulso, e logo ele estava em meio às ruas, galopando desesperadamente. Edifícios desmoronavam, o chão tremia sob seus cascos, e a poeira encobria tudo.
Tijolos e destroços caíam dos céus como chuva. Tentando escapar, o Shire desviava o quanto podia — até que uma pedra gigantesca, vinda de um prédio parcialmente destruído, despencou sobre ele, atingindo brutalmente sua perna traseira.
Um relincho de dor rasgou o silêncio. Preso, ele tentou se soltar, cavando o chão, empurrando a pedra, mas suas forças foram se esvaindo. Rodeado pela poeira e pelo som distante de mais explosões, ele deitou-se enfim, vencido pela dor e pelo medo.
Fim do flashback
Agora, seguindo ao lado de Misuk, o cavalo ainda sentia o eco daquele terror em seus ossos. Mas havia conforto no toque suave da jovem e na presença tranquila de Snow e Faísca. Cada passo era um lembrete de que havia sobrevivido — e que talvez, só talvez, ainda houvesse esperança.
Misuk lançou um olhar para os filhotes. Snow, de pelagem branca como a neve, caminhava com elegância e vigilância. Já Faísca, com o pelo caramelo, farejava o caminho à frente, inquieto e alerta.
Ela olhou o cavalo mais uma vez. Ainda não sabia o que ele havia enfrentado, mas algo dentro dela dizia que todos ali estavam unidos pelo mesmo mistério — algo inexplicável e maior do que imaginavam.
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Em outro ponto da cidade silenciosa, Moon e Peter caminhavam por entre escombros. Estavam exaustos. O prédio onde entraram havia sido vasculhado completamente, sem sucesso.
— Não tem ninguém aqui — disse Moon, limpando o suor da testa, a frustração visível no rosto.
Peter olhou em volta, irritado.
— Que merda... só tem a gente nessa porra?
O silêncio ao redor pesava como chumbo. Nenhuma voz, nenhum carro, nenhum sinal de civilização.
— Pelo que parece, sim... — respondeu Moon, cruzando os braços, pensativa.
— Aish... — Peter resmungou, bagunçando os próprios cabelos. — Isso tá me dando nos nervos já.
Mas antes que pudesse continuar reclamando, Moon arregalou os olhos e sorriu.
— Olha, Piti! Que lindinho!
Ela apontava para um cantinho sombrio, onde um pequeno gato preto estava encolhido entre os escombros. Peter seguiu o olhar, se abaixou com cuidado e pegou o animal no colo.
— Ele é tão fofo... — disse com um sorriso verdadeiro, o primeiro em horas. — Como vamos chamar ele?
Moon começou a acariciar o bichano, que miava baixinho.
— Ainda não sei... — murmurou. — Tem que ser algo forte... mas também fofo. Que tal... Ash?
Peter olhou para o gatinho, que respondeu com um miado suave.
— Acho que ele gostou, né, Ash?
Ash se aconchegou no colo dele, ronronando baixinho.
Com o novo companheiro nos braços, os dois seguiram por entre as ruínas. Poucos metros depois, Peter parou abruptamente.
— Espera... tem algo ali.
Um par de olhos brilhava por entre arbustos. Um animal grande os observava — atento, mas sem hostilidade.
Peter se agachou.
— Vem cá, amigão... — disse, com voz calma.
O lobo-cinzento de pelagem branca avançou lentamente. Seu porte era imponente, e os olhos profundos fixaram-se nos de Peter. Quando ele estendeu a mão, o animal permitiu o toque.
— Porra... não dá pra te carregar no colo nem fudendo — murmurou Peter, rindo.
Moon ergueu uma sobrancelha.
— Você vai adotar um lobo agora?
— Sim — respondeu Peter, sem hesitar.
— Ele precisa de um nome — disse Moon, observando o novo integrante. — Algo imponente.
— Frost — sugeriu Peter, pensativo. — Ele tem essa vibe fria e forte.
— Combinou — disse Moon, sorrindo.
E Frost, como se entendesse, soltou um leve rosnado de aprovação antes de seguir ao lado deles.
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Não muito longe dali, Noah guiava seu doberman, Zeus, por entre ruínas e becos vazios. O cachorro estava inquieto, os músculos rígidos, as orelhas em alerta.
— Calma, filho — disse Noah, tentando acalmá-lo com carinho. — Vamos achar alguém.
Zeus rosnava baixo, farejando o ar.
De repente, começou a latir, puxando a coleira com força. Noah seguiu seu olhar até um grande entulho. Algo se mexia ali embaixo.
— Ei... — chamou ele, abaixando-se. — Tá tudo bem...
Com cuidado, Noah afastou os pedaços de madeira e concreto. Logo, um filhote de leão, sujo de poeira e tremendo, surgiu.
O pequeno rugiu fraquinho, assustado.
— Ei, ei... calma, pequeno — murmurou Noah, estendendo a mão com calma.
O leãozinho hesitou, mas se aproximou, encostando o focinho em sua mão.
Noah o examinou rapidamente. Um corte na barriga. Nada grave, mas exigia atenção. Com habilidade, improvisou um curativo usando tecido e água de sua mochila.
O filhote gemeu baixinho, mas logo relaxou no colo dele.
Zeus se aproximou. O leãozinho esticou uma patinha até o focinho do cão, que respondeu cheirando-o com cuidado. Os dois se encararam por um momento... e, então, sentaram-se lado a lado.
— Parece que vocês se deram bem — disse Noah, sorrindo.
Ele olhou para o filhote de leão e acariciou sua cabeça com carinho.
— Acho que você precisa de um nome também...
O filhote o olhou com olhos grandes e confiantes.
— Sol — sussurrou Noah. — Porque você brilha mesmo nesse caos.
Sol ronronou baixinho, encostando a cabeça no ombro de Noah.
E assim, enquanto o mundo ao redor permanecia um mistério, novos laços inesperados começavam a se formar — entre humanos e animais, entre coragem e medo, entre o presente e um passado que ainda precisava ser desvendado.